De tempos em tempos, colocam mais um rato na Coca-Cola

Ingeri meio gole de uma das seis garrafas de dois litros de Coca-Cola contaminada com restos de rato

De tempos em tempos, colocam mais um rato na Coca-Cola

Ainda lembro do fuzuê que foi quando um maluco jurou que estava vivendo o inferno na Terra por ter tomado uma Coca-Cola com restos de rato. Que frase magnífica, nem lembrava que era possível formar uma frase com essas palavras nessa ordem. Pode ir parando tudo, leia de novo essa frase, lembre dele falando "Ingeri meio gole de uma das seis garrafas de dois litros de Coca-Cola contaminada com restos de rato" e ok, vamos em frente.

De quando em quando, lembro daquele surto. Não fez sentido nenhum realmente, não deu pra entender absolutamente nada do que estava acontecendo, e a cada segundo que passava... passava, mais uma vez, no meu computador, um vídeo de alguém mostrando que dava para recortar uma garrafa plástica e colocar o lacre de volta. Poderiam ter colocado sim, sem tirar o lacre, logo o caso é impossível. Mas ele falou que tomou em uma garrafa de vidro, talvez você pense, mas o ano é 2013. Ninguém estava realmente ouvindo ninguém, estávamos no ano do Não Vai Ter Copa, no ano das Jornadas de Julho, no ano que estávamos começando a conhecer o Jair Bolsonaro a nível nacional e, com certeza, estávamos vendo um homem jurar que tomou um gole de uma das seis garrafas de dois litros de Coca-Cola contaminada com restos de rato.

Se era de vidro, afinal, ninguém mais lembra. A história aumentava cada vez mais. Colocaram o maluco na tevê, ele ainda explicou que sentiu corroendo o esôfago... sério, é uma frase magnífica. Faria uma postagem inteira só repetindo o relato dele. Lindo. Arte. Basicamente o que a Grávida de Taubaté tentou ser, ou talvez ela tenha sido o que ele prometeu ser. Ele gesticula, faz movimentos, ele explica como que o líquido desceu pelo pescoço dele, e claramente é um caso de alergia ao Caramelo IV.

É! Caramelo 4! Nome de cachorro! Titititi, vem cá Caramelo 4. No caso, ainda é um caso de alergia. Mas até chegar na conclusão, o cara ficou 13 anos repetindo que estava vivendo o inferno na Terra por ter tomado um gole de uma das seis... é. Enfim, prosseguindo, não tinha garrafa nenhuma e não tinha rato nenhum e não tinha porra nenhuma.

Também me lembra do caso do rapaz que escreveu quatorze livros no seu quarto inteiro antes de desaparecer, o Bruno Borges. Todo mundo falando sobre como que ele deixou bastante coisa escrita, sobre ele ser um gênio, mas... tá, e a busca pela pessoa desaparecida? De pessoa desaparecida em pessoa desaparecida, me lembro que há um ou dois anos alguém desapareceu, e lá tava sua única amiga: reclama que ninguém tá falando dele, fala que não é pra falar dele, fala que é pra falar, fala que a família dele tá sendo escrota, fala que ei, vocês aí, se liguem, a família vai processar se VOCÊS chamarem de escrotos e, quando conseguiu uma divulgação midiática, descobriram que a família sabia exatamente quando que o rapaz tinha saído de casa. Ela fez o que tinha ao seu alcance, mas parecia que virou crime uma página não querer divulgar aquilo. Vez ou outra me pergunto se alguém, no meio do mutirão pra procurar o menino que desapareceu após deixar claro pra todos à sua volta que estava tendo o pior dia da sua vida, explicitou aos seus pares que o objeto direto da frase "estamos procurando ele" se tratava de uma pessoa morta. Horrível, mas não era pra ser sobre isso. Estou falando do Bruno Borges, que a família avisou o Brasil todo que ele sumiu – exceto a polícia. Ok.

Enfim, de tempos em tempos surge algum hoax. Alguém inventa que uma menina que assistiu a série dos treze porquês teve o mesmo fim da protagonista com um cenário idêntico ao da série, alguém inventa que tem uma conta de 13 mil seguidores que é a conta oficial da BYD, alguém inventa que não deveriam ter falado sobre como é uma sessão de terapia com a esposa do Eduardo Bolsonaro porque há um tal de sigilo que o paciente deve seguir.

Hoaxes são fáceis de desmentir, desmentiria uns dez por dia, mas o problema segue real: em vez de falar que a esposa do Eduardo Bolsonaro nem psicóloga é, o que rende é abrir um livro gigantesco falando sobre esse sigilo e sobre como ele pode ser sim deixado de lado às vezes. O problema da comunicação com as massas tende a ser forte, existente, comum, e segue ali. Faça um vídeo, fale merda, espere dez milhões de pessoas repetirem que seu vídeo tá falando merda... deixe eles brigarem entre si. O hoax já foi lançado.

O rato já está na Coca-Cola. Já foi tomado. Já foi falado. Já foi ouvido. Agora, deixe as pessoas repetirem, milhões de vezes, a mesma frase. É, isso mesmo: você tomou um gole de uma das seis garrafas de dois litros de Coca-Cola contaminada com restos de rato. A própria Coca-Cola dirá que ele não conseguiria ficar tanto tempo sem ser corroído, e abrirá uma discussão: faz bem pros dentes? Pros ossos? Nascerá outra discussão, será que faz bem tomar Coca-Cola? Pepsi é melhor? Aliás, como Pepsi é adoçada? Não sei você, mas eu só tomo Sprite. Ah, sim, é da Coca-Cola também, foi mal: só tomo H2OH! Ouvi na Band que é melhor, porque desliguei da Globo que não mostra o caso do rato da Coca-Cola.

Enfim, lá segue vivo o hoax da vez.